Something

Um pouco de reflexão e criatividade é o requisito fundamental à evolução do ser.

(Sir Mateus Macedo)

Apenas O Cheiro de Chocolate

Eu sempre pensei que o tempo tudo podia curar

Até que um dia encontrei uma serpente

E seu veneno não queria me deixar

 

Ela está comigo em todos os lugares

E não posso mais me controlar

A cada momento, a cada suspirar

 

Mas isso é muita maldade

Pois não há mais felicidade

E apenas o cheiro de chocolate

A Vida Pode Amanhecer

Acorde, por favor, mas que tremor!

Esse circo não tem porta

Pois essa porta é sempre torta

 

Tem que ter, tem que fazer acontecer

A vida pode amanhecer

Mas isso não tem chance de amadurecer

 

Crer sem entender não vai resolver

Pois o resplandecer desse viver só existe

Porque não queres crescer e não paras

De escrever nesse computador

Sem Você

Todas aquelas pessoas, aquelas vozes

Risadas, fofocas, livros, agitação

E fico perdido em toda aquela imensidão

 

Está quente, mas sinto frio

Está cheio, mas tudo é vazio

Está claro, mas tudo é escuro

 

Qual é o limite de todo esse afeto?

Derive-me, se você quiser

Mas, sem você, esse lugar é um deserto

Coisas da Infância

Que saudade daquele tempo
Quando fantasia era realidade
E a vida era aleatória como o vento

Que saudade daquelas ruas vazias
Quando tudo acontecia por mera sorte
E a gente adentrava no silêncio de Nova Iorque

Não se esqueça de mim, meu irmão
Pois a noite é uma criança
E devemos nos esconder do ancião

Venha, essa é minha vida, sua vida
E temos que nos lembrar desses dias
Já que as estrelas sempre estiveram ao nosso alcance
Num simples relance de xis, bolinha, quadrado, triângulo.

Os Porquês

Por que fugir do que está perto

Tentar negar o irrefutável

Querer não sentir o que já se sente?

 

Por que mascarar o óbvio

Dissimular o evidente

Desejar o inatingível?

 

Para que perfumar o inodoro

Saborear o insípido

Amar quem não pode te amar?

 

O Morcego

             A cena passa-se numa sombria e gélida noite de inverno. Podiam-se ouvir claramente as folhas das árvores, a relva e os insetos inquietos, tudo por causa da ventania que não cessava. Ao mesmo tempo, um silêncio maligno preenchia qualquer sinal de vida que se manifestasse naquela rua. Não havia ninguém, nem mesmo um mendigo, nas calçadas. A luz dos postes variava de uma claridade débil a uma penumbra assustadora. Apenas o som do vento ecoava pelos corredores dos quarteirões.
            Bem naquela rua, num apartamento do sétimo andar, eu dormia profundamente, mergulhada num mundo onde ninguém pode interferir, ou, pelo menos, assim acreditava. No meu quarto, também dormiam minha mãe, minha primogênita e minha caçula, com pouco mais de dois anos. Aquela redoma guardava meus bens mais preciosos e eu faria de tudo só para protegê-las de qualquer coisa que as tentasse ferir.
            Em meus sonhos, podia sentir uma brisa abundante e avassaladora entrando pela janela do quarto. Sim, eu me encontrava no meu próprio quarto, dentro do meu sonho. Além disso, por mais sinistro que pareça, vi meu próprio corpo repousando na imensidão das trevas daquela noite. Fiquei desesperada, caro leitor, e recomendo que pare de ler este conto e abandone-o definitivamente. Não o aconselho que continue nessa intrincada leitura.
            Tentei retornar ao meu corpo, mas quando pus minha mão sobre ele, esta o atravessou, como se fosse apenas um reflexo, uma lembrança. Então, já enlouquecida pelo medo, mergulhei com ímpeto em direção ao meu corpo. “Não!”. Fui parar debaixo da cama, em meio a uma grossa camada de poeira. Parecia que aquele quarto não era habitado há séculos. Observei atentamente aquele vão escuro, mais ainda do que a noite, e notei que a poeira começou a se mover. A camada de poeira dividiu-se em pequenos pedaços, mas pedaços com vida. Começaram a andar sobre mim, a entrar em minha boca. Eram vermes! Gusanos com fedor de carniça! Tentei gritar, mas não podia. Minha garganta estava obstruída, e os vermes não estavam entrando em minha boca, mas saindo de dentro de mim. Arrastei-me para fora daquele ambiente. Tentei acordar minha mãe, mas ela nem se movia. Minhas filhas, menos ainda. Então, saí do quarto e pulei desesperadamente sobre meu irmão, que dormia na sala. Sacudi-o, mas também estava inerte. Os últimos vermes caíram sobre ele. Gritei “socorro!” inúmeras vezes, mas nada ocorreu. Das janelas do apartamento, entrava uma corrente de ar espessa e forte. Era como se todo o vento da rua estivesse direcionado para mim. Então, ouvi baixas e sutilmente, muitas vozes, dizendo: “Ela pensa que está sozinha”. As vozes riam-se, num deboche macabro, daquela situação. Voltei para o quarto e comecei a berrar: “acordem”, “levantem”. Ninguém me ouvia. Comecei a sentir um frio tão intenso que entrei num processo de tremedeira. Ouvi um som horripilante emitido por coruja e barulho de asas se movendo vigorosamente. Olhei para a janela e vi um ser indescritivelmente assustador entrando no quarto e pousando no móvel de bebê da minha filha. Gritei, mas gritei de forma jamais vista antes. O meu desespero era tão grande que meu coração não batia mais, mas vibrava como um terreno atingido por terremoto.
            Não sei como descrever a criatura, mas vou fazer o melhor que posso com as simples palavras de nossa língua. Tinha cara de coruja, mas negra como a escuridão de um cemitério. As asas eram de morcego, mas muito maiores do que o normal. A posição dessas asas era intimidadora: cruzavam-se de forma como se esperasse um só instante para me atacar. Mas a pior parte era os olhos, olhos vermelhos como sangue; sangue inocente, arrancado do pecado. Os olhos me acusavam e me arrebatavam para o mais profundo abismo, onde pude ouvir prantos e ranger de dentes. Não conseguia me libertar daquela hipnose e desmaiei de fraqueza e impotência.
            Acordei com gritos ensurdecedores de minha filha caçula. Estava em agonia e pranto profundo. Levantei-me, dando “graças a Deus” por estar acordada e não mais naquele sonho terrível. Cutuquei minha filha, mas ela continuou chorando, como se estivesse sentindo dor. Tomei-a em meus braços e falei: “Acorde querida; já passou”. Então, como se acordasse de um transe, abriu os olhinhos e me disse, com cara de espanto: “O morcego, mamãe! O morcego pode matar!”.

Dom Casmurro - Capítulo: O Penteado - “(…) Olhos de cigana oblíqua e dissimulada.”, “(…)Olhos de ressaca.”

A Princesa Distante

Minha princesa está tão longe
Seus encantos me apaixonam
E contento-me com o horizonte

Sinto teu perfume, teu sorriso, teu olhar
Mas o que queres, ó destino obscuro
Para fazer-me de novo admirar

O que mais desejo é sentir
Atrevessar fronteiras e distâncias
Só para me juntar a ti

Sempre Comigo

Cansei dessa mentira doce e fantasiosa
Enquanto você me ignora, me despreza
E continua dissimulada e ociosa
 
Eu uso como artifício seu descaso
Encho-me de uma tristeza amarga
E escrevo poemas ao acaso
 
Espero que ache a felicidade
Mas saibas que estarás sempre comigo
Linda, em plena mocidade
 

Bacanal na Praça

             Seguindo meus amigos sem saber, ao certo, para onde estávamos indo, fui surpreendido por um furacão de pessoas: bêbadas, estranhas, desesperadas, alienadas, vulgares, imaturas, loucas. O tumulto estava concentrado na Praça da Liberdade, local belo, singelo e puro de outrora. A grama, que era tão verde e macia, tornara-se parte de um patê nojento, de tudo que se possa imaginar. Não havia como se movimentar sem esbarrar ou ser trombado por um desses insanos. Era um verdadeiro caos: o Pré-Carnaval.

            Movendo-nos aleatoriamente por entre toda aquela massa, encontrávamos, a todo o momento, com um bêbado suado, descontrolado, sem camisa, de corpo malhado exposto. Cantavam minhas duas amigas com artifícios dos mais medíocres e desprezíveis que se possa imaginar. Tinham apenas o corpo para oferecer como atrativo. Podiam plantar bananeira também, ou, quem sabe, pular de um pé só. Enquanto isso, eu caminhava, logo atrás, com meu amigo e minha outra amiga, que se portava com mais pudor. À frente, as duas procuravam algum sujeito que as atraísse carnal e sexualmente, pois não havia sentimentos ali. Aliás, parecia que os sentimentos se esvaíram juntamente à beleza e a vida da praça. Naquele ambiente pútrido, moral e visualmente, não havia mais o significado de coisas simples, como: amor, paixão, beleza, a observação, a valorização do ser, da pureza, do natural.

            As mulheres estão perdendo-se na vulgaridade cada vez mais cedo. Estão deixando para trás seus valores como mulher, dama, símbolo de cortejo. Continuando a travessia sem sentido por aquele bacanal, surgiram dois indivíduos sem camisa, e um deles saiu puxando uma das duas apressadinhas, como se fosse mercadoria de algum comércio de prostitutas. Ela o rejeitou, mas passou para a que estava comigo, a mais comportada até aquele momento. Enquanto a sucção de bocas, línguas, salivas, resíduos alimentares banhados a etanol prosseguia, a que dispensou acabou sendo influenciada pela terceira a “pegar” o outro indivíduo descamisado. Uma morena tão linda, de pele cor de jambo, cabelos negros como a asa da graúna; pernas, seios e quadris tão divinamente delineados, que até pareciam ter sido desenhados pelas próprias mãos do criador. Tão bela e, mesmo assim, deixar-se ser influenciada e se entregar para um sujeito asqueroso. Depois da troca de fluidos bucais que, na verdade, continham informações de incontáveis outras garotas, seguimos em diante, mas, agora, só para satisfazer o ego ferido da terceira, que já começava a ficar histérica, pois não “pegara” ninguém.

            Finalmente, depois de darmos mais uma volta pela célula do inferno, a histérica encontrou um fulano, que já conhecia antes, mas o desprezava. Na falta de coisa melhor, acabou se entregando a um cara que parecia um Samuel Rosa depois de lutar na Guerra do Vietnã. Para não dar o braço a torcer, voltou para nós dizendo que ele era lindo (estava escuro no lugar ou, então, ela esquecera seus óculos ou lentes em casa). O fulano, por sua vez, passou por nós apontando seu dedinho nojento para a minha ingênua amiga, falando para os amigos: “é aquela ali, ó”, como se ela fosse um objetozinho de sua coleção pervertida. Mas eu duvido que ele saiba o quanto ela é incrível, divertida, mimada (no bom sentido), companheira, preocupada com os outros, dedicada, sincera, franca, amiga exemplar, além dos atrativos carnais, como a maioria dos homens a vêem apenas. Duvido que ele amasse o temperamento apimentado dela, nos momentos de fúria, desapontamento, decepção. Duvido que aquele que “pegou” a primeira enxergaria sua beleza sutil que apóia todo aquele que precisa de um ombro amigo. Duvido que a maioria dos machos, hoje em dia, são homens de verdade.

            Depois de a morena de corpo escultural ser possuída pelo terceiro da noite, partimos para nossos pontos, para aguardar nossos ônibus. Mas Dionísio ainda festejaria por mais um longo tempo, junto aos seus faunos, aliás, cães tarados, que perseguiam as garotas, mais parecidas com cadelas no cio, rebolando e deixando o cheiro de suas entranhas pelo ar.