Seguindo meus amigos sem saber, ao certo, para onde estávamos indo, fui surpreendido por um furacão de pessoas: bêbadas, estranhas, desesperadas, alienadas, vulgares, imaturas, loucas. O tumulto estava concentrado na Praça da Liberdade, local belo, singelo e puro de outrora. A grama, que era tão verde e macia, tornara-se parte de um patê nojento, de tudo que se possa imaginar. Não havia como se movimentar sem esbarrar ou ser trombado por um desses insanos. Era um verdadeiro caos: o Pré-Carnaval.
Movendo-nos aleatoriamente por entre toda aquela massa, encontrávamos, a todo o momento, com um bêbado suado, descontrolado, sem camisa, de corpo malhado exposto. Cantavam minhas duas amigas com artifícios dos mais medíocres e desprezíveis que se possa imaginar. Tinham apenas o corpo para oferecer como atrativo. Podiam plantar bananeira também, ou, quem sabe, pular de um pé só. Enquanto isso, eu caminhava, logo atrás, com meu amigo e minha outra amiga, que se portava com mais pudor. À frente, as duas procuravam algum sujeito que as atraísse carnal e sexualmente, pois não havia sentimentos ali. Aliás, parecia que os sentimentos se esvaíram juntamente à beleza e a vida da praça. Naquele ambiente pútrido, moral e visualmente, não havia mais o significado de coisas simples, como: amor, paixão, beleza, a observação, a valorização do ser, da pureza, do natural.
As mulheres estão perdendo-se na vulgaridade cada vez mais cedo. Estão deixando para trás seus valores como mulher, dama, símbolo de cortejo. Continuando a travessia sem sentido por aquele bacanal, surgiram dois indivíduos sem camisa, e um deles saiu puxando uma das duas apressadinhas, como se fosse mercadoria de algum comércio de prostitutas. Ela o rejeitou, mas passou para a que estava comigo, a mais comportada até aquele momento. Enquanto a sucção de bocas, línguas, salivas, resíduos alimentares banhados a etanol prosseguia, a que dispensou acabou sendo influenciada pela terceira a “pegar” o outro indivíduo descamisado. Uma morena tão linda, de pele cor de jambo, cabelos negros como a asa da graúna; pernas, seios e quadris tão divinamente delineados, que até pareciam ter sido desenhados pelas próprias mãos do criador. Tão bela e, mesmo assim, deixar-se ser influenciada e se entregar para um sujeito asqueroso. Depois da troca de fluidos bucais que, na verdade, continham informações de incontáveis outras garotas, seguimos em diante, mas, agora, só para satisfazer o ego ferido da terceira, que já começava a ficar histérica, pois não “pegara” ninguém.
Finalmente, depois de darmos mais uma volta pela célula do inferno, a histérica encontrou um fulano, que já conhecia antes, mas o desprezava. Na falta de coisa melhor, acabou se entregando a um cara que parecia um Samuel Rosa depois de lutar na Guerra do Vietnã. Para não dar o braço a torcer, voltou para nós dizendo que ele era lindo (estava escuro no lugar ou, então, ela esquecera seus óculos ou lentes em casa). O fulano, por sua vez, passou por nós apontando seu dedinho nojento para a minha ingênua amiga, falando para os amigos: “é aquela ali, ó”, como se ela fosse um objetozinho de sua coleção pervertida. Mas eu duvido que ele saiba o quanto ela é incrível, divertida, mimada (no bom sentido), companheira, preocupada com os outros, dedicada, sincera, franca, amiga exemplar, além dos atrativos carnais, como a maioria dos homens a vêem apenas. Duvido que ele amasse o temperamento apimentado dela, nos momentos de fúria, desapontamento, decepção. Duvido que aquele que “pegou” a primeira enxergaria sua beleza sutil que apóia todo aquele que precisa de um ombro amigo. Duvido que a maioria dos machos, hoje em dia, são homens de verdade.
Depois de a morena de corpo escultural ser possuída pelo terceiro da noite, partimos para nossos pontos, para aguardar nossos ônibus. Mas Dionísio ainda festejaria por mais um longo tempo, junto aos seus faunos, aliás, cães tarados, que perseguiam as garotas, mais parecidas com cadelas no cio, rebolando e deixando o cheiro de suas entranhas pelo ar.